Semeando Comunidades Suzuki no Brasil: Um relato de Manaus
Por Barbara Bianca Carvalho Soares, Juliana Lima Verde
O Brasil é um país continental, devido à sua grande extensão territorial, e também é rico em diversidade cultural. Poucas pessoas têm a real noção do quanto essa extensão nos une e nos separa ao mesmo tempo, como se houvesse muitos "Brasis" para conhecer e explorar. Uma dessas regiões que tem muito a revelar é a Região Norte, tanto em seu verde quanto em sua cultura. O maior estado dessa região (e do país) é o Amazonas, que abriga um dos maiores festivais de ópera do país e um dos mais belos teatros do mundo. Sua capital, Manaus, é uma cidade vibrante de 2,1 milhões de habitantes que é um centro de atividades culturais tradicionais e modernas.
No Amazonas, o Método Suzuki encontrou um lar bem-vindo. O primeiro boom aconteceu com a vinda de estrangeiros do "El Sistema vezenoelano" por volta de 1999, em conjunto com a fundação da orquestra estadual e a criação de uma grande escola de música, um projeto social que leva o nome de Cláudio Santoro. Nessa primeira etapa, a abordagem priorizava a leitura de trechos musicais dos livros de Shinichi Suzuki, e muito pouco ou quase nada sobre a filosofia. Isso era diferente das outras regiões do Brasil, onde já havia escolas Suzuki conhecidas, como o Centro Suzuki de Campinas, o que atesta a falta de contato entre as regiões brasileiras.
Foram necessários aproximadamente vinte anos para que os alunos dessa primeira geração se formassem em seus instrumentos e conhecessem mais profundamente o Método Suzuki por meio dos cursos certificados. Em seguida, criaram o Centro Suzuki Amazonas e realizaram os primeiros grandes eventos Suzuki na capital. Foi nesse contexto que ocorreu o segundo boom do Método Suzuki em Manaus, marcado pelo I Encontro Suzuki Amazonas, um evento que reuniu escolas de diferentes regiões do Brasil com o objetivo de harmonizar os sonhos de alunos e professores. Esse projeto foi realizado por meio de parcerias entre o Centro Suzuki Amazonas, o Centro Suzuki de Brasília e o Música para Crianças da Universidade de Brasília MPC/UnB. Essas conexões foram importantes anos mais tarde para a realização do Vamos Tocar? Curso de Férias para Violinistas, um projeto que superou a pandemia ao reunir violinistas brasileiros em uma série de encontros on-line. Este artigo tem como objetivo relatar os eventos Suzuki realizados em Manaus e a criação de parcerias de diferentes regiões do Brasil. Assim, será importante conhecer os parceiros que construíram essas conexões que foram fundamentais para a realização desses eventos.

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Bárbara Bianca Carvalho Soares trabalhando com um aluno no Centro Suzuki Amazonas.
Escolas envolvidas no Movimento Suzuki em Manaus
Fundado em 2017, o Centro Suzuki Amazonas foi a primeira escola de música dedicada inteiramente à metodologia Suzuki. Neste ano, completa cinco anos e conta atualmente com cinquenta alunos da SECE, violino, viola, violoncelo e piano, sob a direção de Bárbara Soares e Débora Batista. A escola também incentivou a reestruturação do Projeto Musicando da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), que atende crianças de todas as classes sociais, bairros distantes, áreas vulneráveis e portadoras de deficiências, como as do espectro autista.
O Centro Suzuki de Brasília foi criado em 2013 e atualmente oferece cursos de violino, viola, violoncelo, flauta doce, piano, violão, educação infantil, canto e metais. Até 2018, a escola mantinha uma parceria pedagógica e estrutural com o projeto "Música para Crianças", da Universidade de Brasília. O Centro Suzuki de Brasília trabalha ativamente para formar uma comunidade sólida que gira em torno da música e dos princípios de desenvolvimento humano da filosofia Suzuki. Estimula o desenvolvimento pedagógico dos professores, tendo promovido cursos de capacitação e workshops ao longo de sua história. Seus alunos e professores participam ativamente de encontros e festivais no Brasil e no exterior, incluindo países como Peru, Argentina, México, Colômbia e EUA.
O Música para Crianças foi aprovado como um projeto de extensão universitária pela Universidade de Brasília em 2002 com a missão de "estabelecer uma parceria entre a universidade e as famílias para o benefício das crianças. Permitir que a música seja uma parte fundamental no desenvolvimento humano das crianças brasileiras" (Freire 2008, 7). Ao longo dos anos, o projeto conquistou novos alunos, levando à formação de novas turmas e ao treinamento de professores para atender à comunidade local. Além disso, o ambiente tornou-se um solo frutífero para o desenvolvimento de pesquisas sobre ensino e aprendizagem na primeira infância e iniciação de instrumentos. Em 2018, o projeto passou a se chamar Escola de Música MiFáSol-Lá.

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A Orquestra Juvenil da Universidade de Brasília se apresenta na cerimônia de abertura do I Encontro Suzuki Amazonas, no Teatro Amazonas.
Primeira reunião da Amazon Suzuki
O I Encontro Suzuki Amazonas foi realizado em 2018 com o objetivo de criar um intercâmbio musical e cultural para os alunos Suzuki das cidades de Manaus e Brasília. As parcerias criadas pelo Centro Suzuki Amazonas, Centro Suzuki de Brasília e o projeto Música para Crianças foram essenciais para o planejamento e realização do evento. A abertura do evento contou com a participação da Orquestra Jovem da Universidade de Brasília, formada em sua maioria por alunos Suzuki. Os músicos e suas famílias aceitaram o convite para tocar em uma das mais belas casas de ópera do mundo, o Teatro Amazonas. Além disso, o projeto recebeu apoio fundamental da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas, que abriu as portas do teatro para que a orquestra se apresentasse junto com os alunos Suzuki de Manaus. O evento também contou com o apoio da Associação Musical Suzuki do Brasil, do Centro de Artes da Universidade Federal do Amazonas (CAUA/UFAM), da Escola de Violão Daniel de Lima e do Centro Suzuki de São José dos Campos. Foram dias de masterclasses, aulas em grupo, oficinas para alunos de violino, violão e violoncelo, e oficinas para pais e professores de instrumentos. Foi possível observar o intercâmbio cultural durante as aulas e apresentações. Para muitos, foi a primeira experiência de conhecer a diversidade da floresta amazônica e, principalmente, de tocar em um teatro de ópera. Para outros, foi uma oportunidade de conhecer professores convidados e alunos Suzuki dos livros mais avançados, e de tocarem juntos o mesmo repertório. O evento foi um marco para os participantes devido às ricas experiências culturais, pois gerou aprendizado significativo, histórias e percepções musicais para alunos e famílias de Manaus e Brasília.
Vamos tocar? Curso de férias para violinistas: A saída da pandemia
A pandemia trouxe desafios para alunos e professores de instrumentos em todo o mundo. Em Manaus, concertos e atividades culturais foram cancelados em março de 2020 devido à COVID-19. Esse contexto levou à criação do projeto Vamos tocar? Curso de Férias para Violinistas, viabilizado pelo Programa Cultura Criativa - 2020 e pela Lei Aldir Blanc por meio do Prêmio Feliciano Lana do Governo do Estado do Amazonas, apoiado pelo governo federal por meio do Ministério do Turismo, Secretaria Especial de Cultura e Fundo Nacional de Cultura. No Brasil, a Lei Aldir Blanc de apoio à cultura foi sancionada em 2020 com o objetivo de fomentar projetos culturais com ações emergenciais para artistas e trabalhadores da cultura. O evento online e gratuito foi realizado de 7 a 9 de maio de 2021 com o apoio do Centro Suzuki de Brasília e do Centro Suzuki Amazonas.
O programa foi estruturado para crianças, jovens, adultos, iniciantes e universitários com o objetivo de motivar seus estudos por meio de masterclasses, workshops e aulas em grupo. O evento atraiu a atenção de violinistas brasileiros e estrangeiros, com mais de cem participantes. O projeto também incentivou a participação de alunos que não fazem parte da comunidade Suzuki. As aulas foram representadas pelas árvores da Floresta Amazônica: Samaúma, Angelim, Buriti, Castanheira e Seringueira. Usar os nomes das árvores foi uma forma de os participantes conhecerem as belezas da Amazônia. As aulas em grupo foram ministradas por professores treinados pela Suzuki Association of the Americas. As atividades variaram desde a revisão da postura do violino e da mão do arco, composição musical, solos e perguntas sobre as árvores das aulas, comidas e as cidades de cada uma. Além disso, os participantes das aulas em grupo foram desafiados a gravar um arranjo de uma canção popular brasileira, "Cravo Brigou com a Rosa" e "Twinkle Twinkle Little Star" para o concerto final do projeto.

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O concerto final do evento on-line, Vamos tocar? Curso de Férias para Violinistas, 9 de maio de 2021.
De acordo com Suzuki, "a aptidão cultural e musical não vem de dentro, não é herdada, mas ocorre por meio de condições ambientais favoráveis" (Suzuki 2008, 23). Além de tocarem uns com os outros, o objetivo das aulas era que os participantes conhecessem um pouco da cultura de cada um. O pai de um aluno de Manaus destacou a atmosfera das aulas, relatando: "Pudemos observar a troca saudável e motivadora de pessoas de diferentes regiões unidas pelo prazer de aprender e fazer música, e o zelo em promover e divulgar nossa rica região amazônica" (Verde 2021, 118). Durante as aulas, foi possível presenciar a interação dos participantes e professores de diferentes cidades por meio das atividades. O professor Théo destacou: "Vi muita gratidão nos olhos de todos, e em momentos como esse é muito bom poder transformar a vida das pessoas de uma forma tão especial" (Verde 2021, 120). Sobre esse contexto, Laura relatou: "Eram dias em que compartilhávamos mais do que experiências musicais e aspectos técnicos do violino, falávamos sobre nossas culturas, músicas e experiências regionais." O professor expressou: "poder fazer música com crianças de todas as partes do nosso país, on-line, em um momento tão delicado como o que estamos vivendo, foi revigorante para todos nós que estivemos juntos nesses dias" (Verde 2021, 120). O professor Bruno destacou que ficou registrada em sua memória "a interação entre alunos de culturas regionais muito diferentes, unidos por um bem comum, a música". O professor revelou que "as amizades que nasceram no projeto já se estendem para além dele, e isso não tem preço!" (Verde 2021, 120).
Ao final do evento, foi possível acompanhar os efeitos duradouros nos participantes e professores, pois "foi possível identificar elementos importantes como afetividade, interação e emoção em prol da motivação dos participantes apesar do contexto pandêmico, ao final, todos saíram um pouco mais perseverantes nos estudos, com esperança de dias melhores, alegria e gratidão no coração" (Verde 2021, 121). Além disso, o projeto foi destaque na agenda cultural de Manaus, apresentado em congressos acadêmicos e na Conferência Online "We are Suzuki", promovida pela Suzuki Association of the Americas em maio de 2021. O evento foi uma oportunidade de compartilhar as atividades Suzuki do nosso rico e imenso Brasil.
De acordo com Dos Santos e Hackbarth (2016), "somente em 2015, foram mais de 350 matrículas em cursos de formação de professores" e esses dados mostram o grande interesse dos professores brasileiros pelo Método Suzuki. Muito disso se deve ao notável impacto pedagógico dos incentivos e bolsas de estudo da Suzuki Association of the Americas, além de parcerias e outros facilitadores de acesso aos cursos de formação. É por meio desse interesse multilateral que o movimento Suzuki chega tão longe, como foi o caso da região Norte do Brasil, fato que culminou na realização desses eventos em Manaus com o objetivo de reunir comunidades Suzuki de diferentes regiões do Brasil. As parcerias construídas proporcionaram intercâmbios culturais entre alunos e professores, a oportunidade de conhecer as belezas da Floresta Amazônica e, principalmente, criaram experiências musicais para crianças, jovens e adultos. Este relatório traz reflexões sobre esses encontros da Suzuki, sobre a forma como entrelaçam conhecimento, colaboração e amizade em diferentes contextos. Mas a música é sempre o fio que envolve as costuras e os laços da vida com bondade, beleza e gratidão.
Referências
Dos Santos e [url=https://suzukiassociation.org/news/author/araceli-hackbarth/]Hackbarth[/url]. 2016. I Encontro Brasileiro de Professores e alunos Suzuki: Construindo Comunidades. Colorado, 23 de maio de 2016. [url=https://suzukiassociation.org/news/i-brazilian-meeting-suzuki-teachers-students/]https://suzukiassociation.org/news/i-brazilian-meeting-suzuki-teachers-students/[/url]
Freire, Ricardo J. D. 2008. Implementação e estruturação de um projeto de musicalização infantil: relato de experiência. Anais do XVII Encontro Nacional da ABEM. São Paulo, Brasil, outubro de 2008. [url=https://www.yumpu.com/pt/document/view/26905919/implementacao-e-estruturacao-de-um-projeto-de-abem]https://www.yumpu.com/pt/document/view/26905919/implementacao-e-estruturacao-de-um-projeto-de-abem[/url]
Suzuki, Shinichi. 2008. Educação é Amor. Santa Maria: Pallotti.
Verde, Lima Juliana. 2021. Vamos tocar? Curso de Férias para Violinistas - Um relato de experiência das atividades em formato remoto. Anais - XI Encontro de Pesquisa e Extensão do Grupo Música e Educação - MusE, v.1, n.1 p. 116-122 Set. 2021. ISSN: 2446-5143. Florianópolis, setembro de 2021. [url=https://grupodepesquisamuse.files.wordpress.com/2015/04/anais-do-iv-encontro-do-muse.pdf]https://grupodepesquisamuse.files.wordpress.com/2015/04/anais-do-iv-encontro-do-muse.pdf[/url]
