Flauta, paternidade e choro: Os universos musicais de Leandro Candido de Oliveira

Há mais de vinte anos, o Instituto Baccarelli atende aos moradores de Heliópolis, uma comunidade em São Paulo, Brasil. Fundado como "um agente de transformação social por meio da arte", o Instituto oferece anualmente a mais de 1.200 crianças e jovens uma educação holística em música e artes. Em 2018, o Instituto organizou o treinamento de professores Suzuki para flauta pela primeira vez. Nesse curso inaugural da Unit One, dez professores participaram, incluindo Leandro Candido de Oliveira, formado pelo Instituto e que, na época, fazia parte do corpo docente de flauta da escola. Mônica Camargo, atual chefe do departamento de sopros e metais da Suzuki no Instituto, e Viviane Marquez, outra ex-aluna que agora faz parte do corpo docente, também participaram da auditoria.
Como instrutor desse curso, fiquei profundamente impressionado com a cordialidade e o senso de comunidade que experimentamos durante os oito dias que passamos juntos. A qualidade da musicalidade era extremamente alta; os exames de saída estavam repletos de belas apresentações, nenhuma delas mais do que a de Leandro. No último dia, ele convidou alguns de seus colegas músicos para tocar choro, um gênero de música instrumental popular brasileira, para a turma. Foi uma experiência inesquecível, especialmente quando Samille Bonfim, participante de Brasília, pegou sua vasilha de arroz para usar como agitador, acompanhando a famosa obra de Pixinguinha, "Carinhoso".
Depois do curso, continuei acompanhando o Leandro no Instagram [url=https://www.instagram.com/tigraoflauta/]@tigraoflauta[/url], que apresenta suas muitas performances de padrões do repertório de choro e também algumas de suas próprias peças. Quando ele começou a ensinar seu filho Murilo, fiquei muito inspirado ao observar o progresso do menino, primeiro na flauta doce e depois na flauta. Mas fiquei ainda mais fascinada com a forma como Leandro ensinou Murilo a tocar de ouvido, usando a linguagem da música brasileira como estrutura. Esse, com certeza, é o "método da língua materna" em ação!
Achei que muitos professores e pais se interessariam em ver e saber mais sobre o trabalho deles, então Leandro concordou em dar uma entrevista. Você também pode encontrar a conta do Murilo no Instagram [url=https://www.instagram.com/muritigrinho/]@muritigrinho[/url], que tem a curadoria carinhosa de seus pais. Assim como Leandro, a mãe de Murilo, Jessica, também é musicista profissional, e toda a família aprende e toca junto em seus vídeos. A entrevista a seguir foi realizada com a gentil coordenação de Mônica Camargo, que também traduziu as perguntas e respostas para este artigo.
Quantos anos seu filho tem agora e com que idade você começou a ensinar música a ele?
Meu filho Murilo nasceu em 2015, portanto, agora ele tem oito anos de idade. Comecei a lhe ensinar música quando ele tinha quatro anos de idade.
Quais eram suas metas?
Meu objetivo no início era explorar a musicalidade que eu já havia percebido nele desde que era uma criança. Como sua mãe também é musicista, nossa casa sempre foi cercada por muitos instrumentos e muitos amigos músicos. Ele sempre foi atraído por ambientes musicais e, desde muito pequeno, começou a demonstrar muita musicalidade, cantando afinado e com ritmo. A flauta doce foi uma maneira de eu desenvolver a musicalidade que ele já tinha dentro de si. Com as músicas que ele cantava, eu conseguia, de alguma forma, traduzi-las para o instrumento e mostrar que era possível tocar os sons que ele já tinha na cabeça.
Vocês praticam juntos todos os dias? Ele toca ou pratica sozinho?
Sim, nós praticamos juntos e, durante a pandemia, foi muito mais intenso: foram dois anos de isolamento, tocando todos os dias, brincando com música, encontrando maneiras de fazer música. Era nossa atividade divertida e nossa maneira de sobreviver. Hoje em dia, ele também pratica sozinho e resolve as coisas por conta própria. Se ele assiste a um desenho animado com música, ele pega a flauta e toca junto. Ele ainda não tem a disciplina necessária para resolver as dificuldades, mas quando tem em mente que quer tocar, passa o dia inteiro tocando.

Por favor, conte-me mais sobre como e por que você ensina o Murilo a tocar choro.
Bem, venho do universo do choro, que é um gênero regional, instrumental, e é considerado a primeira música genuinamente brasileira. A forma mais eficaz de aprendê-lo é de ouvido, ouvindo gravações e interpretações de outros músicos. A partitura fica em segundo plano - serve mais como uma anotação.
Sempre notei que os músicos que começaram muito jovens com o choro tinham uma fluência musical acima do comum, em parte porque a estrutura melódica do choro é muito baseada na harmonia. Por exemplo, se um choro tem três partes, cada parte tem uma tonalidade diferente com modulações, de modo que a própria melodia mostra todo o caminho harmônico. Mesmo sem saber formalmente sobre harmonia, seu ouvido já está sentindo a harmonia dentro da melodia, além das dificuldades rítmicas da música.
É uma forma de música na qual eu realmente acredito que promove a possibilidade de desenvolver uma percepção aguçada de um todo musical. E depois que estudei um pouco o Método Suzuki, onde se diz para observar que toda criança aprende fluentemente sua língua materna, pude aplicar esse conceito com meus alunos e, de certa forma, comigo mesmo. Comecei então a aplicá-lo com meu filho Murilo, desde muito cedo em seu desenvolvimento musical. Choro é algo que sempre ouvimos em casa e, embora eu também toque outros gêneros musicais (como clássico e improvisação), o choro está entre os que mais ouço. O Murilo cresceu ouvindo isso e, enquanto eu lhe ensinava as notas na flauta doce, tentei procurar as melodias do choro e compus algumas músicas para ele, de acordo com seu nível, como uma música só para a mão esquerda, usando apenas as notas que ele sabia tocar. Também acrescentei um pandeiro a alguns dos choros que compus. Era visível e audível como ele estava melhorando com o ritmo, e ele estava entendendo cada vez mais sobre a estrutura musical por meio do choro. Ele conseguiu tocar facilmente as músicas que já conhecia e cantava, pois elas foram internalizadas.
{media:49178:med:r:Curso de Flauta Suzuki Unidade Um no Instituto Baccarelli em 2018. Leandro Candido de Oliveria está na fileira de trás com sua flauta sob o queixo. Mônica Camargo (à frente, quarta da direita) facilitou esta entrevista}.
Que lugar a música clássica ocidental ocupa nos estudos de Murilo?
Embora eu viesse do universo do choro, em um determinado momento entrei em um conservatório de música, onde o currículo de flauta era música clássica ocidental. Era uma instituição muito conceituada, o Conservatório Dramático e Musical de Tatuí, no interior do Estado de São Paulo. Passei por todo o processo que a música ocidental exige, como métodos e execução orquestral, enfim, me tornei um músico clássico, mas sem deixar de tocar música brasileira, sem deixar de tocar choro. Hoje, em meus estudos, busco sempre a técnica e a limpeza da música clássica, com a criatividade e a percepção da música brasileira. Nunca abandonei meus estudos de flauta, e mais uma vez, durante a pandemia, estudei muito, revisitando métodos como os de Marcel Moyse. Tudo isso com o Murilo assistindo à televisão com a flauta na mão. Percebi que ele também estava tentando tocar os mesmos exercícios que eu, então o incentivei, estabeleci um padrão e ele acompanhou.
A mãe de Murilo toca baixo em uma orquestra sinfônica. Quando ele vai assistir a ensaios e concertos com ela, volta tocando os temas que ouviu. Em casa, ouvimos música clássica e popular: vivemos nesses dois ambientes. Acredito que ele aprende música clássica da mesma forma que aprende choro, auditivamente. Ele toca concertos clássicos na flauta, sem saber ler uma única nota. Cada tipo de música entra em sua mente da mesma maneira, e ele parece não perceber as diferenças nos padrões, de modo que pode reproduzir facilmente os sons.
Quais são alguns dos destaques ou momentos especiais de sua jornada até agora?
Ser músico sempre foi uma alegria para mim. Desde o primeiro momento em que peguei o instrumento, me apaixonei pelo som, pelas possibilidades. Desde aquele momento, eu sabia que seria músico. Levei um tempo para desenvolver a disciplina necessária para me tornar um músico profissional, mas, ao mesmo tempo, fazer música despertou outras facilidades em mim (tudo tem seu tempo). Demorou um pouco para que algumas coisas acontecessem ao longo do caminho, mas elas aconteceram: Tive a alegria de ganhar três Concursos Nacionais de Flauta, em categorias diferentes (Música Erudita Brasileira, com um repertório de compositores nacionais; e música clássica, onde toquei Mozart e Ibert) e ganhei duas vezes concursos de choro.
Aprendi a amar a música clássica e seu belo repertório para flauta. Embora eu adore tocar em uma orquestra, minha afeição pela música brasileira é igualmente forte. Fui solista de uma orquestra, tocando concertos de Mozart e Radamés Gnattali. Fui quatro vezes à Europa, com uma orquestra e tocando música brasileira, ministrando workshops. Meu maior prazer é poder continuar envolvido com tudo isso e também poder compartilhar música com minha família!

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Para os professores de flauta que estão lendo este artigo, vocês podem compartilhar como se mantêm em forma como músicos? Você segue uma rotina de estudos consistente?
Ao transitar entre os universos da música regional brasileira e da música clássica ocidental, comecei a sentir a necessidade de desenvolver meus próprios exercícios e estudos, com base no conhecimento que tenho dessas várias linguagens. Por exemplo, comecei a adaptar os Exercícios Diários de Taffanel com outras escalas ou modos, que posso usar em um momento de improvisação de música brasileira. Procuro manter todos os aspectos técnicos e sonoros atualizados, para poder aplicá-los à música brasileira e utilizando elementos da própria música brasileira. Uma coisa que faço muito é pegar fragmentos de um choro, uma parte muito difícil tecnicamente por causa das notas ou do staccato, e estudá-la usando o sistema clássico. Em outras ocasiões, pego algo do repertório clássico e tento entendê-lo como um estudo de modulação, e não apenas de escalas. É uma mudança de pensamento, em que você começa a entender tudo como sons e cores e não apenas como escalas. Eu estudo a flauta todos os dias e, se não pratico, sinto falta.
